20/02/2015
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TERCEIRA DIMENSÃO
Por Thiago Oliveira
Ainda na década de 1980, a revolução começou a se manifestar quando pranchetas passaram a ser substituídas pelas telas dos computadores com o surgimento do sistema CAD (Computer Aided Design) e de seus traçados em duas dimensões. Na modernidade do século 21, anunciam-se novas mudanças na forma de concepção de projetos de arquitetura. A sigla em torno da qual as atenções se voltam agora é: BIM, de Building Information Modeling, ou Modelagem de Informações para Construção.
Em síntese, o avanço se concentra em duas esferas. A primeira é a elaboração dos projetos em 3D, incrementando sutileza espacial à visualização geométrica dos edifícios. A grande novidade, porém, reside na atribuição de informações aos elementos do desenho. Mais: essas informações, muito além do que simples legendas, seguem atachadas àquele elemento durante todas as fases do projeto - até o material chegar às mãos do engenheiro executor. Por fim, o detalhe valioso: qualquer ajuste feito nessa informação, nesse atributo do elemento, é imediatamente processado, repercutindo de maneira instantânea ao longo de todo o projeto.
Na prática, os desenhos deixam de ser representações abstratas - entidades isoladas com linhas, arcos, círculos e polígonos, como ocorre no CAD - e passam a absorver especificações técnicas. Um simples caixilho, no BIM transforma-se em um caixilho de alumínio natural fosco com vidros canelados medindo 1,67 m x 1,36 m, por exemplo. "O processo de produtividade é inverso: perde- se mais tempo no começo, agregando informações no software, para ganhar depois", diz o arquiteto André Augusto Prevedello, do escritório Königsberger Vannucchi Arquitetos Associados.
Com os novos recursos, avista-se uma lista de benefícios: redução nos conflitos entre os elementos construtivos, facilidade nas
revisões, aumento da produtividade, diminuição de retrabalho. "Pretende-se evitar passos ao pegar informações com outros agentes. Na hora de compatibilizar com o projetista estrutural, basta importar as informações dele e o BIM automaticamente insere no meu protótipo", explica Prevedello. "Começamos a ter uma base única de informações para todos." Grosso modo, significa que todas as equipes, de arquitetura e engenharia, trabalham sobre um mesmo arquivo eletrônico.
A partir dessa idéia de integração de especialidades, salienta-se a força de mudança capaz de incidir sobre a cadeia de profissionais. "Em termos de controle de custo, de velocidade e por considerar os mais diversos processos construtivos, o BIM possui um enorme impacto", destaca Dominic Gallello, presidente da Graphisoft, empresa desenvolvedora do software ArchiCAD, ao qual o BIM é integrado. "O sistema pode especificar para o cliente quanto custará a obra durante o desenvolvimento do projeto, sem esperar três meses até a construtora fornecer os dados", descreve.
PROPAGAÇÃO LIMITADA
Tão significativos quanto as potenciais vantagens do BIM são os desafios de popularizá-lo no mercado. Isso porque, sem uma adoção em massa por escritórios de projeto e construtoras, o sistema perde boa parte de seus efeitos.
Por ora, ao que se tem notícia, a aplicação efetiva da modelagem é raridade. "Não conheço nenhum empreendimento que empregue BIM no ciclo completo de projeto", indica o professor Charles de Castro Vincent, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
"Os poucos casos de escritórios de arquitetura que empregam BIM têm dificuldades em sua implementação vertical completa, e praticamente inexistem casos em que ocorra a implementação horizontal (entre os diversos colaboradores, tais como calculistas, engenheiros de instalações e outros)", completa Vincent, que além da área acadêmica atua também profissionalmente, em metodologias de projeto e computação gráfica.
A percepção é partilhada pela professora Regina Coeli Ruschel, da FEC/Unicamp (Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Campinas): "Estamos muito incipientes ainda", avalia. Em se tratando da escassa utilização dos recursos BIM, Regina viveu uma experiência curiosa.
Recentemente, procurou a desenvolvedora de um dos vários softwares integrados ao BIM: queria fazer uma pesquisa junto às
revendas do produto, intrigada com a impressão de que o programa vinha sendo explicado e ensinado apenas como ferramenta para modelagem em 3D.
O dirigente da empresa com quem conversou rebateu a idéia, garantindo que há muitos clientes usando o software em todas as suas funcionalidades. No entanto, não autorizou a pesquisa. "Por algum tempo, ainda vamos usar o programa (integrado ao BIM) como uma prancheta eletrônica, assim como o CAD", opina a professora.
ENTRAVES
As razões para a morosidade na transição são presumíveis, a começar pelos elevados custos envolvidos. Mas há outros
fatores. "Além do alto custo por estação de trabalho, alto custo da capacitação e algum conservadorismo com relação às novas tecnologias, há um descompasso acentuado entre os padrões construtivos nacionais e as possibilidades oferecidas pelos softwares BIM, invariavelmente norte-americanos", acredita Charles Vincent.
O professor explica que o problema da capacitação não passa só pelo treinamento adequado de arquitetos e projetistas, mas pela organização de padrões de intercambialidade dos arquivos BIM. "As práticas usuais de profissionais diversos divergem quanto a padrões gráficos e escalas de trabalho", aponta. "Nos softwares BIM, identificamos seqüências de trabalho que não coincidem com as seqüências tradicionais de tomada de decisão projetual e ênfases diversas em cada etapa de trabalho."
Vincent vai além e diz que enquanto o fluxo de informações entre os vários players da indústria de construção civil não for padronizado, o impacto de softwares de grande complexidade será marcadamente negativo, "e não me refiro à padronização por baixo que o uso do CAD implica", alerta.
Como alternativa ao desafio da padronização, o docente do Mackenzie menciona propostas como o IFC (Industry Foundation Classes), modelo elaborado pela IAI (International Alliance for Interoperability) e aprovado pela ISO (International Standardization Organization) que viabiliza o intercâmbio de informações arquitetônicas e construtivas entre softwares com inteligência objetual - tais como os BIM.
"Iniciativas assim poderiam ser incorporadas às práticas de grandes empresas e, com o tempo, ajustadas às nossas
necessidades locais", sugere.
APLICAÇÃO
Mesmo sabendo da dificuldade em encontrar agentes na cadeia da construção adeptos ao BIM - o que potencializaria os benefícios do sistema -, o escritório Königsberger Vannucchi está prestes a realizar sua primeira experiência com a modelagem. "Nossa intenção é implantar um projeto-piloto e ir disseminando isso no escritório conforme apareçam os resultados", conta o arquiteto André Prevedello. "Mesmo que não utilizemos as informações dos outros projetistas, para nós, em teoria, já vai ser de grande ajuda", vislumbra.
O otimismo é baseado na dinâmica a ser garantida pelo acúmulo de informações, ainda que somente nos serviços de incumbência da arquitetura. "A idéia é que se aproveite muito mais de um anteprojeto para um projeto básico, de um projeto básico para um executivo. As informações tendem a ir crescendo", justifica.
Adaptar a estrutura do escritório para a novidade não tem sido simples. "Estamos revendo nossa rede de computadores e todo o sistema de servidor está sendo refeito porque o BIM exige bem mais da máquina", ressalta Prevedello. A exigência por performance das CPUs é tão grande que há receio de se incluir projetos grandes e complexos na modelagem em 3D. "Não sabemos se vamos conseguir rodá-los", pondera.
Telas do software Archicad que se integra ao BIM. Em sentido horário, a partir do alto, à esquerda, corte com especificações da laje; lista de ambientes; lista de esquadrias e planta
ENSINO
Outra dificuldade considerável na difusão do conceito BIM tem relação com o aprendizado acadêmico. "A mim parece
que as mudanças de paradigma em projeto arquitetônico são pouco exploradas nos currículos de graduação", nota o professor Charles Vincent, do Mackenzie.
Para ele, o fenômeno não é exclusividade brasileira. "A experiência internacional também não é tão avançada nesse sentido. Nos congressos internacionais de computação gráfica, um dos tópicos mais discutidos - e sempre de forma polêmica - é a adequação de grades curriculares das escolas de arquitetura às novas tecnologias."
Recém-formado e pós-graduando pela Unifacs (Universidade Salvador), da Bahia, o arquiteto Bruno Tupinambá sentiu na pele - e enfrentou - o conservadorismo da academia: mesmo desencorajado pela pré-banca que examinou seu projeto de conclusão de curso, apresentou todo o trabalho em 3D - e, no final, obteve nota máxima.
"Em todo meu percurso na universidade, tentei defender a utilização de novas tecnologias para conceber um projeto, porém sempre era podado pelos professores mais antigos", lembra. "Até mesmo os softwares CAD ainda são mal vistos no processo criativo pela maior parte do corpo docente. Alguns não sabem nem do que se trata", aponta Tupinambá.
Regina Ruschel, professora da Unicamp, toma emprestada uma analogia do colega Silvio Burrattino Melhado, da Poli-USP (Escola Politécnica da Universidade de São Paulo), para definir a participação da academia e do mercado na promoção de novas tecnologias, entre as quais, o BIM.
"O professor Melhado diz que TI (Tecnologia da Informação) na construção é como tração nas quatro rodas dos veículos: tem que empurrar e puxar - a universidade empurrar, o mercado puxar."
ENTREVISTA - Dominic Gallello
REALIDADE VIRTUOSA
aU DE QUE FORMA O SISTEMA BIM, AO QUAL O ARCHICAD É INTEGRADO, INFLUENCIA NO PROCESSO DE CONSTRUÇÃO?
DOMINIC GALLELLO Dramaticamente. O sistema permite que a arquitetura seja integrada à engenharia, inclusive a sustentável. Um desenho 3D ajuda o arquiteto a ser o artista que deseja. E não apenas no design, mas também no processo de execução e em como juntar todas as partes do projeto. O sistema pode especificar para o cliente quanto custará a obra durante o desenvolvimento do projeto, sem esperar três meses até a construtora fornecer os dados. Com isso, há a possibilidade de mudar o projeto mais facilmente e mostrar ao cliente o que essas modificações causarão. Pela visualização espacial e informações, o desenho do arquiteto também não precisa de grandes modificações na
execução, a construtora não perde tempo enfrentando problemas e procurando soluções no canteiro. Um exemplo típico são os
sistemas de ar-condicionado, que geram diversos problemas na maioria dos projetos.
aU COMO AVALIA A TRANSIÇÃO DE USO DO CAD PARA O BIM?
GALLELLO Em países, essa migração ocorre, de forma mais ou menos acentuada, por diferentes razões. Há a razão cultural. Na Rússia, há um verdadeiro boom de nossos produtos. A situação na China é similar. Acho que, para eles, o 3D é algo natural. A pressão de mercado e a educacional também são outros fatores. Nos Estados Unidos, o instituto de arquitetos é categórico ao indicar 3D. Além disso, as empresas de construção estão usando o chamado 5D - 3D, mais custo e prazo. As construtoras utilizam essa ferramenta para apresentar os projetos, e o arquiteto não pode ficar no 2D. Fizemos uma pesquisa com nossos usuários e descobrimos que nenhum considera o 2D suficiente.
aU QUAIS AS INOVAÇÕES DO ARCHICAD 12 NO QUE SE REFERE À NOVA MODELAGEM?
GALLELLO Destaco três grandes novidades. Tecnologicamente, seremos a primeira aplicação BIM a suportar processadores multicore - com dois ou quatro núcleos. Isso provocará uma grande melhora na performance do software, os processos serão instantâneos. Não é apenas velocidade, mas agilidade nos processos de design 2D ou 3D. Os elementos construtivos também poderão ser moldados, editados. O arquiteto poderá mudar uma pequena peça. Outra modificação é que a visualização no sistema 3D de informações é um pouco difícil e, por isso