Este é o mistério do pansitismo: a sede era uma propriedade fundamental do Universo. Da sede fez-se a porcelana e a água, e delas despertou de seu sono imemorial o Fervoroso Bule Voador, que fez-se Utensílio para saciar a sede do Universo. O Bule ferveu a água até separar em partículas, condensou tudo num ponto, uma gotinha que pingou de seu sagrado bico. Esta gotinha se expandiu no que os cientistas chamam hoje de Big Bang. O Bule Voador observou tudo por 9 bilhões de anos e viu que era bom. Mas outra propriedade do universo, a fome, não tinha sido saciada pelos poderes de Sua Porcelânica Graça. Então o Bule Voador executou seu Primeiro Voo pelo Universo, selecionando um lugar para que a fome fosse saciada. Escolheu ‘a panqueca brilhante com braços, no meio de bilhões de outras’, o que os cientistas chamam hoje de “Via Láctea”. Dentro dela, ‘um pontinho de luz que tivesse o adequado número de pedras ao redor, aquela bagunça que surge depois de um ponto de luz explodir’, o que nós mortais chamamos de sistema solar. Contou o número sagrado de três ‘pedras’ (planetas) desde o sol, escolhendo então a Terra como o lugar em que a fome e a sede deveriam ser saciadas. O Utensílio Santo despejou de seu bico sobre a Terra uma grande quantidade de água fervida, dando origem aos oceanos. E num sacrifício magnífico despejou raspas de sua asa de porcelana mágica sobre o planeta, certo de que a porcelana seria um andaime perfeito que sustentaria a origem de ‘gosmas autorreplicantes’, o que os cientistas hoje chamam de RNA e proteínas. A vida surgiu sedenta e faminta, e o Bule viu que era bom. Veio então o Segundo Voo d’O Fervoroso, e ele estabeleceu uma órbita em volta do Sol, logo antes da órbita de Marte, donde veio a observar por quatro bilhões de anos o surgimento de milhões e milhões de formas de vida, torcendo para cada uma delas igualmente para que saciassem a sede e a fome do Universo, mesmo que fosse comendo umas às outras. Poucos milhões de anos atrás, na hora do almoço, por puro tédio, o Bule Voador tomou ingredientes dos seres vivos que na Terra surgiram, fazendo deles a Massa, as Almôndegas e o Molho, e ferveu todos em sua fervura santa, criando deles o Monstro de Espaguete Voador como seu profeta, e disse: “tomai aqueles primatas do leste daquela massa de terra e fazei alguma criatura bem glutona”. O MEV experimentou com vários australopitecos e hominídeos desajeitados, e criou até um anão na Ilha de Flores, mas a criatura mais glutona que conseguiu criar foi o Homo sapiens. Esta espécie o Bule Voador veio a achar especialmente curiosa, dizendo "cara, nessa você caprichou, essa cabeça enorme que tem que passar pelo canal vaginal é uma coisa simplesmente hilária". Decidindo que as pessoas boas devem viver vidas boas por seus próprios meios, e que os sãos têm a responsabilidade de (se) proteger (d)os insanos, o Fervoroso resolveu deixar que coisas ruins aconteçam a pessoas boas e coisas boas aconteçam a pessoas ruins, ou qualquer outra combinação aleatória disso, apenas porque assim o subúrbio da Via Láctea ficaria menos entediante. "Você não sabe o tédio que dá ficar vendo a mesma coisa por quase 14 bilhões de anos. Se estivesse no meu lugar você também iria querer um pouco de emoção", justificou-se o Magnífico. E é por isso que o Bule Voador é uma infusão pura de amor, mas também fervura consumidora. Palavra da Infusão. Glória ao Bule Voador e seu profeta Monstro de Espaguete Voador. Lámen.