12/04/2026
10 𝐀𝐍𝐎𝐒 𝐃𝐄𝐏𝐎𝐈𝐒 𝐕𝐎𝐋𝐓𝐀 𝐀𝐂𝐎𝐍𝐓𝐄𝐂𝐄𝐑
Na madrugada de 12 de Abril de 2026, o município de Benguela voltou a gritar… e quase ninguém ouviu.
𝑺𝒆𝒕𝒂 𝑨𝒏𝒕𝒊𝒈𝒂, 𝑪𝒂𝒍𝒐𝒎𝒂𝒏𝒈𝒂, 𝑪𝒐𝒏𝒅𝒖𝒍𝒆, 𝑺𝒂𝒏𝒕𝒂 𝑪𝒍𝒂𝒓𝒂 𝒆 𝑸𝒖𝒊𝒐𝒙𝒆 não foram apenas bairros inundados — foram memórias reabertas. Porque o que aconteceu em 2025 não é novidade. É repetição. É o eco de 2015, quando o Rio Cavaco já tinha mostrado que não perdoa.
𝙁𝙖𝙢í𝙡𝙞𝙖𝙨 𝙚𝙢 𝙘𝙞𝙢𝙖 𝙙𝙖 𝙘𝙝𝙖𝙥𝙖. 𝙉ã𝙤 𝙥𝙤𝙧 𝙚𝙨𝙘𝙤𝙡𝙝𝙖… 𝙢𝙖𝙨 𝙥𝙤𝙧𝙦𝙪𝙚 𝙤 𝙘𝙝ã𝙤 𝙙𝙚𝙞𝙭𝙤𝙪 𝙙𝙚 𝙚𝙭𝙞𝙨𝙩𝙞𝙧.
O Cavaco não nasce no acaso. Ele tem origem nas regiões mais altas do interior da província de Planalto Central de Angola, alimentado por chuvas intensas que descem com força até Benguela. Quando chove lá em cima… a tragédia prepara-se cá em baixo. A água que desce do Planalto em direção ao oceano não pede licença — ela exige passagem. Quando essa passagem não é devidamente criada ou respeitada, a natureza impõe a sua própria solução: rompe, invade e destrói.
No município de Benguela, o problema não é apenas a força das chuvas, mas a fragilidade — ou influência de algumas construções — das infraestruturas criadas para lidar com elas. As chamadas “passagens” existentes são, em muitos casos, insuficientes, subdimensionadas e incapazes de suportar o volume real das águas que descem do Planalto.
É preciso dizer com clareza: garantir vias adequadas de escoamento não é favor, é responsabilidade do executivo. Ignorar a dinâmica natural das águas é assinar, repetidamente, o mesmo cenário de destruição, onde as populações pagam o preço da falta de planeamento.
Enquanto se insistir em soluções de “meia medida”, a água continuará a mostrar que não se adapta à incompetência — ela simplesmente encontra o seu caminho, custe o que custar.
𝙈𝙖𝙨 𝙤 𝙥𝙧𝙤𝙗𝙡𝙚𝙢𝙖 𝙣𝙪𝙣𝙘𝙖 𝙛𝙤𝙞 𝙨ó 𝙖 𝙘𝙝𝙪𝙫𝙖 𝙥𝙤𝙧𝙦𝙪𝙚 𝙖𝙩é 𝙣𝙚𝙢 𝙘𝙝𝙤𝙫𝙚𝙪 𝙖𝙦𝙪𝙞 𝙚𝙢 𝘽𝙚𝙣𝙜𝙪𝙚𝙡𝙖 𝙥𝙖𝙧𝙖 𝙩𝙖𝙡 𝙚𝙨𝙩𝙧𝙖𝙜𝙤, 𝙢𝙖𝙨 𝙤 𝙥𝙧𝙤𝙗𝙡𝙚𝙢𝙖 𝙨ã𝙤 𝙖𝙨 𝙨𝙚𝙜𝙪𝙞𝙣𝙩𝙚𝙨:
• Assoreamento do leito
• Ocupação desordenada das margens
• Falta de drenagem urbana eficiente
• Construções em zonas de risco
• Ausência de manutenção contínua
Tudo isso transforma água em destruição.
Mas a verdade incômoda é: prevenir não é aparecer depois com solidariedade — é evitar que as pessoas durmam com medo da chuva.
𝙊 𝙦𝙪𝙚 𝙙𝙚𝙫𝙚𝙧𝙞𝙖 𝙚𝙭𝙞𝙨𝙩𝙞𝙧 (𝙚 𝙣ã𝙤 𝙖𝙥𝙚𝙣𝙖𝙨 𝙣𝙤 𝙥𝙖𝙥𝙚𝙡):
✔️ Sistemas de drenagem modernos e funcionais
✔️ Desassoreamento regular do rio
✔️ Reordenamento urbano sério (mesmo que impopular)
✔️ Zonas de proteção permanente nas margens
✔️ Sistemas de alerta precoce para cheias
✔️ Educação comunitária sobre risco ambiental
Porque enquanto isso não acontece…
As mesmas pessoas continuam a subir para a chapa, como se o telhado fosse refúgio e não desespero.
Mas há algo ainda mais perigoso que a água:
A indiferença.
Porque muitos olham, comentam… e seguem a vida com uma frase silenciosa:
“Mas não vivemos ali.”
Até ao dia em que a tragédia muda de endereço
𝑬 𝒐 𝒎𝒂𝒊𝒔 𝒅𝒖𝒓𝒐 𝒅𝒆 𝒕𝒖𝒅𝒐:
A tragédia não revolta quem está longe.
Porque no fundo, muitos responsáveis pensam — ainda que nunca digam:
“Mas eu não vivo ali.”
Até ao dia em que a água deixa de respeitar fronteiras sociais… e invade também as zonas onde hoje há silêncio.
Por: Madureira Salupassa (Geográfo e estudante do meio ambiente).