30/09/2016
Existem dois tipos de geólogos, aqueles que levam em seu sangue a necessidade de compreender a Terra pelas mesmas razões que precisam dormir, comer ou respirar, e aqueles que o fazem apenas pela tarefa, por obrigação ou por não ter alternativa. Esses últimos normalmente chegam à profissão por acaso ou outra forma não planejada.
Os primeiros, frequentemente, tem a inquietude desde pequenos, quando viam nas montanhas e paisagens algo notável, místico, sublime. Muitos destes começaram desde pequenos a colecionar minerais e rochas, ou acumulando fotos e pôsteres ou qualquer outra coleção com motivos geológicos. Conheciam as especif**ações e dados de qualquer mineral com riqueza de detalhes.
Quando crescem e têm a sorte de realizar seu sonho, desfrutam plenamente do seu trabalho e sentem-se os homens mais sortudos do planeta.
Os geólogos são uma classe à parte de humanos, eles abandonam todo o mundano para purif**ar seu espírito no campo entre rochas, e somente voltam à realidade depois de receber a comunicação do infinito e do passado.
Esse grupo conhece a diferença entre fazer geologia para sobreviver e sobreviver para fazer geologia. A geologia os ensina um paradoxo: orgulho e humildade.
A Geologia é uma magia que faz vítimas voluntarias de seu feitiço transcendente.
Quando estão na cidade, durante dias ensolarados, observam continuamente as montanhas no horizonte com saudades de estar ali, durante os dias chuvosos e nublados, reveem os procedimentos de campo em suas mentes.
O verdadeiro geólogo sabe que o melhor treinamento de campo está em si mesmo, em sua imaginação, em sua atitude, porque a mente do geólogo está sempre acessível a elementos novos e compreende que para mapear é preciso acreditar no desconhecido, no que não se vê e no que já ocorreu.
No mais, os geólogos são homens lógicos, calmos e disciplinados, que pela necessidade, precisam pensar claramente de outra forma, e têm uma incomum obsessão por rochas.
O verdadeiro geólogo não observa simplesmente um afloramento, pelo contrário, através do seu martelo ele vibra com as rochas, em todo seu corpo.
As feições geológicas são uma extensão de sua personalidade, essa simples ação une o homem a natureza na simetria de uma só entidade. Numa mistura única e indecifrável, cada mineral, cada rocha, cada estrutura tem sentido e o geólogo as interpreta apropriadamente.
Os verdadeiros geólogos não veem seus objetos de afeição como matéria inerte, ao contrário, são formas vivas que respiram e possuem diferentes personalidades, em alguns momentos falam e até riem com eles.
Esses seduzidos mortais percebem a geologia com uma beleza incondicional, porque nada estimula mais os sentidos de um geólogo que a forma simétrica de um mineral ou esquisita de uma dobra, não podem evitar, estão infectados pelo feitiço, e eles viverão o resto de suas vidas contemplados pela magia de sua beleza.
Para o verdadeiro geólogo ver uma amostra recolhida é como encontrar um familiar perdido, uma e outra vez.
Para os verdadeiros geólogos, os afloramentos são altares ao talento humano. Ali se realizam diariamente os desafios e os milagres frente às energias da natureza e a sua compreensão. São lugares sagrados, onde o ritual de raciocinar se exalta e se glorif**a, de onde caminhos e fronteiras se encontram e o mundo f**a pequeno, nos que se chora de alegria e também de tristeza, onde nascem esperanças e sucumbem ideais, onde o som do silêncio habita as lembranças.
No campo o geólogo está em seu elemento, em sua casa, ao que pertence, é ali que ele se liberta da escravidão que o sujeitam na cidade. É um dom de DEUS que ele aceita com respeito e alegria.
Este privilégio lhe permite escalar as prodigiosas montanhas, e alcançar dimensões no subsolo que outros mortais não alcançarão. Este presente permite apreciar a perfeição do criador e o absurdamente pequeno humano. Permite-lhe igualmente reconhecer que ninguém avista uma montanha como ele a vê.
Distinguir uma pessoa que deu sua alma à geologia é fácil, quando uma rocha aparece em seu caminho volta-se imediatamente buscando-a e não descansará até que a descreva e classifique. Não importa quantas vezes tenha visto a mesma rocha, é preciso vê-la novamente, é algo inconsciente e espontâneo.
Os verdadeiros geólogos podem explorar os elementos físicos da natureza, mas descrever o que ocasiona na sua existência é impossível, porque explicar a magia de compreender a evolução da Terra está além das palavras.