23/06/2019
A HISTÓRIA DO AZUL
Até a Era Industrial a cor azul foi um luxo, restrito aos membros da nobreza e às imagens religiosas. Na Antiguidade, apenas os egípcios utilizavam a cor azul. Para obter o azul, os egípcios precisaram aperfeiçoar a mineração. O azul era extraído do lápis lazúli, uma pedra semipreciosa, que de tão escassa era usada apenas para adornar os túmulos dos faraós e os olhos da realeza, como era o caso de Cleópatra.
Não há a cor azul nas pinturas rupestres das antigas cavernas coloridas pelos humanos pré-históricos. Para eles, a extração das cores dependia dos recursos disponíveis na natureza que eram de fácil acesso. Na natureza o azul é raro! Há poucos animais com plumagem ou escamas azuis, há poucas flores... Então, as pinturas primitivas tinham as cores da terra e dos frutos dominantes na natureza.
O azul era tão “apagado” no Imaginário dos povos do passado que a menção a sua existência não é encontrada em referências culturais signif**ativas, tais como as Sagas Islandeses ou o Alcorão. Os gregos, por exemplo, não tinham uma palavra para a cor azul! Os antigos chineses, tempos após o azul dos egípcios, desenvolveram uma mistura à base de mercúrio para criar tons de azuis. Essas novas cores ganharam um status místico na cultura chinesa, a ponto de serem misturadas às fórmulas medicinais que, para azar de muitos Imperadores, se tornavam venenosas.
Venenosa também era a utilização que os povos mesoamericanos davam ao azul. Era a cor utilizada para pintar os corpos daqueles que seriam sacrif**ados! A fórmula que esses povos utilizaram para criar a cor azul ainda é um mistério químico. De três ingredientes, apenas dois são conhecidos. O caráter místico do azul persistiu por muitos séculos e nas mais diferentes culturas. No século XIII, quando a Igreja Católica sancionou o culto à Virgem Maria, a raridade da cor azul, sua associação com o céu e a pureza, fizeram-na a cor do manto da Santa por excelência.
Somente com a Revolução Industrial, e o barateamento dos insumos para a produção de cores, favorecido pela produção em larga escala, é que o azul deixou de ser a cor dos ricos, dos nobres e dos santos. Um dos marcos da popularização do azul se deu por volta de 1890, quando o imigrante alemão Levi Strauss decidiu tingir as calças de lona, que vendia aos garimpeiros da Corrida do Ouro no Oeste norte-americano, com o corante de uma planta chamada Indigus. A cor azul não apenas definiu o jeans como o conhecemos, ela também fez a fama e a fortuna de Levi Strauss erigindo uma peça ícone do vestuário contemporâneo.
De origem nobre, a cor azul ganhou atributos metafísicos no decorrer de sua história, e expandiu-se como símbolo de pioneirismo e de criatividade. O azul, portanto, é fruto do trabalho e da inventividade humana. Não foi dado pela natureza em sua forma pura, precisou ser escavado das profundezas da terra, lapidado, estudado, manipulado em fórmulas diversas. O azul enfeitou, matou, santificou, e acabou nos aproximando a todos com uma vestimenta global. O azul, podemos pensar, é como o amor: é uma história com muitos capítulos, que pode gerar prazeres nobres e dores excruciantes, que tanto pode elevar ao paraíso quanto condenar ao sacrifício... E que, por isso, no fim de tudo, iguala todos os seres humanos.