08/05/2026
O departamento do papelão…
Por: Sérgio Raimundo
A mãe dessa criança chorou, teve contracções e correu, com certeza, para uma maternidade em busca de um parto assistido. Após a dor, viu a vida emergir de si; e, logo depois, viu-a marcada com um pedaço de papelão de um produto qualquer no bracinho.
Sim, papelão. Aquele papelão que anuncia prazos de validade de produtos; aquele papelão que sabe que vai ao lixo e por isso vem já escrito “descarte no lixo adequado”; aquele papelão que, para facilitar, nos avisa “abra por aqui”. Esse papelão virou pulseira nas maternidades.
Falo daquele papelão que, em muitos produtos, nos adverte em letras garrafais “manter longe do alcance das crianças”. Esse mesmo papelão é cortado, furado com um elástico e serve de etiqueta para os recém-nascidos. Se esse papelão tivesse um minuto para falar, não tenho dúvidas de que diria “o que faço aqui? Meu lugar é no lixo”.
Falo do papelão que é lixo, descartado assim que se retira o que ele embrulha. O papelão que ninguém ousa tocar com as mãos limpas, porque nunca se sabe o que ele carregou; aquele papelão que é recolhido pela pá e pela vassoura das senhoras da limpeza.
E, depois, somos chamados de imbecis quando levantamos a voz. Quando o país compra luxos para os chefes e o papelão dessas regalias é o que sobra, em stock, para as maternidades. Chamam-nos imbecis quando as nossas crianças, ao nascer, são algemadas a etiquetas de papelão, como pequenos produtos nas prateleiras de uma loja de esquina.
Creio que em nossos hospitais falta tudo, menos papelão. Vi, há meses, que em Nampula o papelão era transformado em massa para imobilizar pacientes, porque não havia gesso. No fundo, parece que o único sector que funciona plenamente nos nossos hospitais é o departamento do papelão.
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