31/07/2023
As minhas filhas
Quando forem grandes minhas filhas, as árvores vão perder as folhas, uma a uma, como se o outono se anunciasse no vosso quintal, digo vosso pois eu, como sempre fui, não passei de um extra-familiar nunca pertenci a nenhum dos cantos da casa que construí, num canto direito onde um ângulo rectângulo descreve um mundo cor de rosa, um boneco de pelúcia sempre ocupava os noventa graus de toda geometria, sempre foi o mundo da mais nova, e sempre foi preenchido por sapos e canções do nascer da manhã, o oposto ângulo, pintava-se com uma cor nova a cada dia, inventar os mundos será sempre o teu ofício, não precisavas nem de portas nem paredes num metro quadrado sempre nasceu vários quilómetros de mundos com os seres que te foram seus, eu, nunca cheguei a habitar os castelos de plador nem a subir a degraus de espuma para o cume dos seus sonhos, e sem asas para voar a única janela que desenhaste no terraço da sua morada, eu cantei fora do quintal, as canções de ninar que muito cedo fora por ti descartadas, todos outros ângulos da casa foram enchidos por loiças e apetrechos que não me serviram de adorno, no quarto mais sapatos do que espaço ocupavam todo espaço e mundo e não coube outro lugar para morar senão nos livros. Para me conhecerem procurem nas pestilentas oblívio de Aníbal aleluia “o gajo e o outros “ e me ouvirão a cada página lavrado suspirando e ou chorando.
No quintal que plantei uma dúzia de árvores para me cobrirem com a sombra nas tardes de outubro, foi mais ocupada por cães, todos de quatro patas que chegaram a superar meu latir e eram donos da casa, não é por acaso que no portão letras garrafais a preto dizem de forma bruta “cuidado com cães” e eu nunca punha ordem, sempre desordem, e não cabia nem mesmo no silêncio das manhãs.
Quando forem grandes minhas filhas, ouviram as línguas que não falei, a verdade é esta, nunca cheguei a falar nenhuma língua, tudo que disse e falei em toda minha vida, eram mentiras, menti tão bem que cheguei a acreditar que tinha uma vida, mas no fim tudo me desmentiu, e não fui mais do que devia ser, “ninguém” o cão sem dono, um mestre sem discípulo, um engenheiro sem casa e por fim um poeta sem livro nenhum, ouvir essas (in)verdades todas todas sobre quem devia ser, pois não fui ninguém.
Quando foram grandes minhas filhas, nem poderiam perguntar por mim pois já serão grandes, como os dois Pinheiros que cortam o a altura do quintal que foi sempre o vosso terreiro, e não poderão concertar minhas loucuras, terão suas próprias mentiras por desacreditar, e será tarde de mãos para me justificarem, já terei conhecido o melhor refúgio para a insignificância “a velhice” quando crescerem o quão fui cão, lembrem-se apenas dos cães que sempre rodearam a nossa casa e de noite guardaram-nos os sonhos, e aceitem que fui o cão guarneci vossos medos pelas noites de trovoadas, escrevam nas folhas em branco que encontrarem pela casa, guardadas para os poemas, escrevam sem dúvida fui o maior de todos eles, menti-vos a vida toda, que tudo ia dar certo e que estava tudo bem mesmo com fantasmas rodeando vossa janela. Menti que vos compraria o mundo onde nem eu mesmo tive onde por os pés, como havia eu te consegui-lo todo para vocês? Por essas e outras fui o melhor dos mentirosos, pois vocês ingénuas, sorriam a cada minuto e acreditavam que eu era o dono do (uni)verso e queriam sempre ouvir-me mentindo.
Quando forem grandes minhas filhas, conheçam apenas o meu nome, quem vem escrito depois do vosso, e saibam que não tive tempo para ser mais nada senão o vosso pai.
Khalvene Dauka
Terceira carta As minhas filhas .
“Os sinais invertidos”