09/03/2026
Sobre o Dia da Mulher, a Trabalhadora.
«Dona Odete vive na Tipografia através do filho (que é fruto).
Uma herança é uma terra a lavrar, ouço-o, nitidamente, dentro do meu corpo.
Dona Odete é inesquecível e não é só por ter sido tipógrafa. Sobretudo, é inesquecível pela sua alegria de menina, muito doce.
Havia um cravo vermelho e era ela sentada na sua cadeira de rodas, celebrando, no meio de uma multidão, o dia mais bonito de todos.
Não fosse isto andar tudo ligado, em que cravo é uma palavra composta no componedor mais valioso.
A palavra tem peso e é poliédrica. Faz-se de chumbo, escapa à polícia política, pisca o olho a outros homens: ourives, tipógrafos, revolucionários.
Entrar nesta casa devia obrigar a uma vénia à Benfica, não fosse o tipógrafo-mor ser um adepto fervoroso do clube de Pinto da Costa.
A vénia faz-se e o corpo entra no espaço, que é casa, por tantas e tão variadas razões.
Coimbra vale a pena com a Tipografia (do Rui Damasceno). Sou ilustradora e designer e gosto de ter este espaço na cidade que me coube (mas que nem sempre me cabe).
Mas há aqui uma questão envolvida no que acabo de escrever: dar por garantida esta casa é um erro. É preciso vir e saber estar, é preciso usá-la, tomá-la, não de assalto, mas sabendo fazer dela um espaço de liberdade, aprendendo a arte (tipográfica) com quem sabe, e imaginando, ou melhor dizendo, ir sonhando com dias futuros.
O poder contido neste espaço é um super poder. Aqui é um lugar de histórias. Aqui é um lugar de luta, de resistência, de construção e também é um lugar onde se sente dificuldade.
É uma escola, um tratado, uma grande sorte que nos coube.»
Ana Biscaia
7 de março de 2026
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Hoje, Dia Internacional da Mulher, lembramos Dona Odete, tipógrafa da Tipografia Damasceno — através das palavras de Ana Biscaia, num texto lido ontem no contexto de «São as mãos que melhor veem a beleza do lugar», iniciativa da Editora dos Tipos integrada na Semana Cultural da Universidade de Coimbra.
A sessão incluiu uma visita guiada à Tipografia Damasceno e à montagem visual de «Ode à Tipografia», conduzida por Ana Biscaia e Joana Monteiro, a partir da perspetiva de quem vive e trabalha este espaço no âmbito da criação em artes visuais.
Com mais de 50 anos de atividade ininterrupta, a Tipografia Damasceno mantém um espaço oficinal plenamente funcional, afirmando-se como um verdadeiro laboratório vivo onde tradição e experimentação se encontram.
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Imagem do livro «Tipografia Damasceno – 50 anos», Editora dos Tipos.