10/07/2026
Há dezenas anos que há empresas em Portugal a fazer aquilo que qualquer empresário conhece bem: investir, contratar técnicos qualificados, pagar salários, impostos, Segurança Social, seguros, formação, certificações, cumprir legislação e enfrentar crises atrás de crises. Sem incubadoras, sem aceleradoras, sem rondas de investimento milionárias e, muitas vezes, sem um único euro de apoio público.
Entretanto, nasceu um novo estatuto: startup, e rapidamente tornou-se palavra da moda.
A Lei n.º 21/2023 criou um regime específico para empresas inovadoras e com elevado potencial de crescimento. O objectivo é legítimo: incentivar a inovação, a tecnologia e a internacionalização. Até aqui, nada a apontar.
O problema surge quando o mercado deixa de ser um campo de jogo nivelado.
Uma startup pode beneficiar de incentivos fiscais, fundos europeus, programas públicos, incubadoras, aceleradoras, capital de risco apoiado pelo Estado e uma rede de apoio criada especificamente para a fazer crescer.
Ao mesmo tempo, milhares de PME, que há décadas criam emprego, pagam impostos e sustentam a economia, continuam praticamente entregues a si próprias.
E há outra questão de que se fala pouco.
Os apoios já não chegam apenas às pequenas equipas que trabalham numa garagem ou num espaço de cowork. Hoje, empresas com estruturas significativas, dezenas ou centenas de trabalhadores e volumes de negócios consideráveis conseguem igualmente enquadrar projectos como startups ou scaleups e captar financiamento público e privado para acelerar ainda mais o seu crescimento.
Ou seja, quem já tem capacidade financeira, equipas especializadas e acesso ao mercado pode ainda beneficiar de instrumentos destinados a potenciar a inovação e escalar o negócio. Enquanto isso, muitas empresas tradicionais, que também inovam, desenvolvem tecnologia, investem em pessoas e sobrevivem anos sem apoios, ficam fora desse universo apenas porque o seu modelo empresarial não se enquadra no regime criado pela lei.
É verdade que as startups têm uma elevada taxa de insucesso. Muitas fecham antes de atingir a rentabilidade. Faz parte do modelo de capital de risco.
Mas também é verdade que milhares de empresas "normais" enfrentam exactamente o mesmo risco todos os dias. A diferença é que, quando falham, ninguém lhes chama ecossistema. Chamam-lhes insolvência.
Portugal precisa de inovação. Precisa de startups. Precisa de scaleups. Mas também precisa de reconhecer quem, durante décadas, manteve empresas abertas sem benefícios especiais, formou profissionais, criou emprego qualificado e pagou os impostos que ajudam a financiar esses mesmos programas.
A questão nunca foi apoiar a inovação. A questão é garantir que o apoio público não cria um desequilíbrio competitivo entre empresas que disputam os mesmos clientes, os mesmos trabalhadores e os mesmos mercados.
Talvez a verdadeira inovação seja tratar de forma mais equilibrada quem cria valor, independentemente da etiqueta que tem na porta. Porque uma empresa não passa a ser mais importante para a economia só porque alguém lhe chamou startup.