24/08/2025
"A verdade sou eu que a digo"
Há frases que, ditas em público, carregam consigo muito mais do que a ligeireza de quem as pronuncia. Podem revelar um estilo, um modo de olhar para os outros e para a vida em comum. Uma delas, acabada de ouvir há pouco na apresentação de uma candidatura às próximas eleições, é esta: «a verdade sou eu que a digo».
À primeira vista, pode soar a simples tropeço retórico, desses que escapam a quem fala sem preparação. Mas a frase não é inocente. Dizer que a verdade pertence a quem fala é assumir-se como fonte exclusiva de realidade. É apagar a dúvida, o contraditório, o espaço do diálogo. É transformar a convivência — que deveria ser lugar de escuta, proximidade e humildade — numa cátedra de certezas pessoais.
A verdade não é monopólio de ninguém. Menos ainda quando vivemos em comunidade. A verdade procura-se, constrói-se no encontro de perspetivas, no debate informado, no confronto de ideias. Quando alguém proclama ser o detentor da verdade, o que está a dizer, mesmo sem o admitir, é que não reconhece a legitimidade do outro. E isso é sempre perigoso, em qualquer contexto.
Na vida, como na política, desconfie-se sempre dos que falam de «verdade» como se fosse património privado. Porque a verdade não se protege erguendo muros de certeza, mas abrindo caminhos de diálogo. Se a verdade fosse apenas «a que eu digo», o mundo correria o risco de se tornar mais pobre, fechado e crispado.
Talvez a frase tenha sido apenas um deslize. Ainda assim, lembra-nos o essencial: quem deseja servir os outros deve começar por escutá-los, porque a verdade não se impõe; descobre-se em conjunto. Amor merece-o.
Amor merece mais.