11/06/2026
Adoro quando os supostos investidores escolhem o arquiteto apenas pelo preço e tentam cortar ao máximo na qualidade. Pensam exclusivamente no custo da construção e no valor de venda final. Depois ficam surpreendidos quando veem casas a serem vendidas por valores muito superiores aos das suas e não conseguem perceber porquê.
Acreditam que a casa deles é tão boa como as outras. Mas não é. Falta-lhe algo essencial: identidade, carácter, essência.
Há alguns anos projetei uma habitação que acabou por ser vendida por cerca de dois milhões de euros. Curiosamente, o comprador foi o próprio empreiteiro. O meu cliente atravessou um problema familiar e, por acordo do casal, decidiu vender a casa rapidamente, abaixo do valor de mercado, para que o processo fosse menos desgastante.
O empreiteiro adquiriu o imóvel, colocou-o novamente no mercado por cerca de 2,2 milhões de euros e acabou por o vender por dois milhões. Mais tarde disse-me que tinha sido a primeira vez que conseguia obter uma margem tão elevada num espaço de tempo tão curto.
A minha resposta foi simples:
"Não foi sorte. Foi valor acrescentado. Foi o valor que a arquitetura pode dar a uma casa."
Existem muitas casas que valem apenas pela localização. Nada mais. São casas sem identidade, sem emoção, sem personalidade. Casas desenhadas sem pensar verdadeiramente no lugar, na luz, na vivência ou no cliente. Foram simplesmente desenhadas.
Depois existem aquelas que têm alma. As que foram pensadas ao detalhe. As que contam uma história. As que têm uma relação com o terreno, com a paisagem e com quem as habita. Essas distinguem-se imediatamente.
Sou de Fão e vivi lá durante toda a minha juventude antes de ir para a faculdade. Ainda hoje passo pela zona do Ofir e vejo moradias com décadas de existência que continuam atuais. Casas desenhadas por arquitetos de enorme qualidade, repletas de pormenores que resistiram ao tempo e continuam a transmitir elegância e carácter.
Recentemente visitei a Estalagem Parque do Rio e fiquei impressionado com a quantidade de detalhes que foram cuidadosamente pensados. Desde os revestimentos das paredes aos elementos de carpintaria, tudo revela uma atenção extraordinária ao projeto.
Mas houve um detalhe que me marcou particularmente. Existe uma estrutura, algo semelhante a um pequeno galinheiro, que foi concebida para acolher um faisão. Hoje pode parecer irrelevante, mas demonstra uma forma de projetar que praticamente desapareceu: pensar para além da função imediata, criar ambientes, experiências e momentos.
Talvez seja a idade. Talvez me esteja a tornar mais exigente. Mas cada vez me custa mais aceitar a banalização da arquitetura.
Quando vejo projetos sem critério, sem proporção, sem detalhe e sem relação com o lugar, pergunto-me muitas vezes: como é que conseguimos passar de uma arquitetura tão rica, tão cuidada e tão intemporal para algo tão pobre e descartável?
A verdadeira arquitetura nunca foi apenas construir. Sempre foi criar valor.
E esse valor continua a ser reconhecido, mesmo muitos anos depois.